Notícia


Transplante de medula óssea sob risco iminente

Atualizado em: 22/12/2020


Este ano tem sido desafiador para todos. No campo da saúde, a palavra que pode traduzir 2020 é “espera”. Seguimos ansiosamente aguardando o acesso à vacina que vai nos proteger contra a Covid-19. Tivemos notícias de amigos da área de saúde que já estão sendo vacinados nos Estados Unidos, Inglaterra e Israel, entre outros países. Nós continuamos patinando e politizando questões importantíssimas e ainda assistindo, incrédulos, à discussão sobre o uso de medicações sem qualquer evidência de benefício contra a Covid-19.

Mas, para muitos brasileiros, esperar não é novidade. Há pelo menos cerca de cinco mil pessoas que, anualmente, esperam pelo momento de realizar um transplante de medula óssea (TMO). Em 2019 foram realizados 4.805 transplantes de medula óssea em adultos e 534 pediátricos.

Para nossa surpresa, fomos notificados de que em 2021 deverá faltar no país um dos fármacos vitais para a realização de um TMO, o bussulfano. Em comunicado expedido em 25 de novembro, a farmacêutica responsável por distribuir o medicamento no Brasil notificou que iria parar de oferecê-lo. Trata-se de uma droga que tem um único fornecedor no nosso país.

Enviamos um ofício, em 25 de novembro, à diretoria da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) dando ciência do fato e solicitando que fossem tomadas providências. Até o momento, ainda não houve retorno oficial.

Sem o bussulfano ou alguma alternativa viável, a maioria destes procedimentos não teria sido realizada, o que poderia significar, na quase totalidade dos casos, a morte. O bussulfano é um medicamento, na forma endovenosa, que prepara o “terreno” para o paciente receber a infusão de células da medula óssea, destruindo as células doentes.

Há 41 anos realizamos o TMO no Brasil. O TMO é uma modalidade terapêutica que representa esperança de vida para pacientes com doenças malignas e não malignas, como as leucemias, linfomas, mieloma múltiplo, neuroblastoma, imunodeficiências, falências medulares entre outras.

Mesmo com o advento da Covid-19 no país, temos lutado para reduzir o risco de infecções no ambiente de TMO nos hospitais, de maneira a não atrasar procedimentos urgentes. É, portanto, inadmissível e assustador estarmos sob a iminente perspectiva da falta de um dos medicamentos essenciais para realizarmos o transplante.

Infelizmente, não é a primeira vez que nos deparamos com uma situação como esta, de desabastecimento de fármacos essenciais à hematologia, como a carmustina, lomustina, bleomicina e melfalano, num balé mórbido e interminável de desabastecimentos contínuos ou intermitentes.

O que mais nos chama a atenção é o fato de bastar um determinado laboratório farmacêutico informar da descontinuidade do fornecimento de um fármaco para que este seja retirado de circulação.

Hoje é o bussulfano… se nada mudar, teremos um novo fármaco na “bola da vez”. Como proteger nossos pacientes, sem termos meios legais que possam evitar este tipo de situação? Defendemos que sejam revistas as normativas que regulamentam não apenas o registro de fármacos com rigor, mas a decisão por descontinuá-los também. Precisamos, também, que as nossas autoridades sanitárias estejam atentas ao desabastecimento destes tratamentos e sejam ágeis em providenciar importação e, se necessário, quebrar patentes em situações emergenciais. Sem alternativas, sem diálogo, sem soluções já estabelecidas, o que temos é um horizonte de colapso. E espera… mais espera… e como fazer esperar aqueles que muitas vezes não têm mais tempo de aguardar?

Nelson Hamerschlak é presidente da Sociedade Brasileira de Transplante de Medula Óssea; Claudio Galvão de Castro Jr. é presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica



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